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Mostrando postagens de setembro, 2024

Pecado

  Lidar com o pesar dos vivos tornou-se rotina. Sinto-me cansada, exausta, mesmo quando meu único dever é absorver a angústia dos outros. Estes olhos que carrego são a prova concreta de que Deus me jogou num ninho de tormento e, depois, esqueceu-se de mim. Aos poucos, a dor tornou-se comum — algo banal, que já não sei se sempre esteve aqui ou se, em algum momento, virou minha salvação. Talvez seja meu destino pagar pelos erros de outros, mesmo sem sequer existir quando tal crime foi cometido. Bem… nem sempre nascemos para viver, de fato. Chuva ou sol. Dia ou noite. Nada importa quando tudo o que consigo ver são borrões de rostos deformados pelo pecado e gritos estridentes de almas que não me deixam seguir em frente. Chega a ser irônico como o ser humano consegue ser tão cruel e, ainda assim, jurar de pés juntos que ascenderá aos céus. Minha família está de mãos dadas, orando, agradecendo pelo alimento. Eu não consigo agradecer por algo arrancado pela exploração d...

onze horas

As janelas estão sempre abertas. A luz entra, assim como o vento gosta de brincar. Tudo permanece em seu devido lugar, ou pelo menos é o que parece estar. Os dias se passam. O sol parou de brilhar. Pássaros morreram de medo, pois o escuro realmente os deixou sem respirar. Me sinto um filhotinho que ainda não sabe voar, que caiu num fio e morreu ali mesmo, enforcado no ar. Não é difícil se perder, se não acredita, eu mesmo posso te mostrar. É bem simples, na verdade: basta me ignorar.

sopro

Às vezes me pego pensando em coisas que não importam; por pensar demais, me calo e sigo o embalo. Não sei em qual rua devo entrar, nem em qual esquina virar. Só sei que nada sei — e talvez nunca saberei. E, de repente, num estrondo, vejo a água subir. Tudo o que já amei decidiu fugir pra bem longe daqui. Sim, está tudo bem, não me importo com partidas. Essas lágrimas não são de tristeza, são minhas amigas. Amigas que me abraçam, me beijam, me embalam, me amarram; me soltam, me provocam e, por fim, me sufocam. Mas sabe, deixei tudo e fui ser feliz: eu, as águas e essa dor gostosa na alma.