Pecado
Lidar com o pesar dos vivos tornou-se rotina. Sinto-me cansada, exausta, mesmo quando meu único dever é absorver a angústia dos outros. Estes olhos que carrego são a prova concreta de que Deus me jogou num ninho de tormento e, depois, esqueceu-se de mim. Aos poucos, a dor tornou-se comum — algo banal, que já não sei se sempre esteve aqui ou se, em algum momento, virou minha salvação. Talvez seja meu destino pagar pelos erros de outros, mesmo sem sequer existir quando tal crime foi cometido. Bem… nem sempre nascemos para viver, de fato. Chuva ou sol. Dia ou noite. Nada importa quando tudo o que consigo ver são borrões de rostos deformados pelo pecado e gritos estridentes de almas que não me deixam seguir em frente. Chega a ser irônico como o ser humano consegue ser tão cruel e, ainda assim, jurar de pés juntos que ascenderá aos céus. Minha família está de mãos dadas, orando, agradecendo pelo alimento. Eu não consigo agradecer por algo arrancado pela exploração d...