Pecado

 

Lidar com o pesar dos vivos tornou-se rotina.
Sinto-me cansada, exausta, mesmo quando meu único dever é absorver a angústia dos outros. Estes olhos que carrego são a prova concreta de que Deus me jogou num ninho de tormento e, depois, esqueceu-se de mim.

Aos poucos, a dor tornou-se comum —
algo banal, que já não sei se sempre esteve aqui
ou se, em algum momento, virou minha salvação.
Talvez seja meu destino pagar pelos erros de outros,
mesmo sem sequer existir quando tal crime foi cometido.
Bem… nem sempre nascemos para viver, de fato.

Chuva ou sol. Dia ou noite.
Nada importa quando tudo o que consigo ver
são borrões de rostos deformados pelo pecado
e gritos estridentes de almas
que não me deixam seguir em frente.
Chega a ser irônico como o ser humano consegue ser tão cruel
e, ainda assim, jurar de pés juntos
que ascenderá aos céus.

Minha família está de mãos dadas, orando,
agradecendo pelo alimento.
Eu não consigo agradecer por algo arrancado
pela exploração dos mais fracos.
Talvez por isso meu castigo seja pagar
pelos pecados dos impuros —
sangue do meu sangue,
carne da minha carne.

E, de repente, somos estranhos novamente,
como se eu nunca tivesse saído do seu ventre.
Como se eu fosse o resto da escória
que não sabe o próprio lugar.
Revolta-me ter vindo ao mundo,
pisado neste inferno,
apenas para aliviar o peso dos ombros
desses lobos em pele de cordeiro.
Clamam por justiça,
mas são os primeiros
a roubar até o último suspiro
dos pobres que só buscam abrigo.

Sim, no final, somos todos iguais:
no sangue, na pele, na carne.
Demônios que espreitam os mais fracos,
que devoram até o último fôlego
de pessoas tão boas
que só desejavam viver em paz.
Nada mais.

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