28 setembro 2024

Pecado

 Lidar com o pesar dos vivos se tornou rotina. Me sinto cansada, exausta, mesmo que meu único dever seja absorver essa angústia dos outros. Estes olhos que carrego comigo são a prova concreta de que Deus me jogou em um ninho de tormento e se esqueceu de mim. 

 Aos poucos a dor se tornou comum, algo banal que não sei se sempre esteve aqui, ou simplesmente se tornou minha salvação. Talvez seja meu destino pagar pelos erros de outros, mesmo que eu nem estivesse nesse plano quando tal crime foi cometido. Bem, nem sempre nascemos para viver, de fato. 

 Chuva ou sol, dia ou noite. Nada importa quando tudo que sou capaz de ver são os borrões de rostos deformados pelo pecado, e esses gritos estridentes de almas que não me deixam seguir em frente. Chega a ser engraçado como o ser humano consegue ser tão cruel e, ainda assim, jurar de pés juntos que vão ascender aos céus. 

 Minha família está de mãos juntas orando, agradecendo pelo alimento. Não consigo agradecer por algo que foi tirado por exploração dos mais fracos. Talvez por isso meu castigo seja pagar pelos pecados dos impuros, sangue do meu sangue, carne da minha carne.  

 E de repente somos estranhos novamente, como se eu não tivesse saído de seu ventre. Como se eu fosse o resto da escória que não sabe seu lugar. Me revolta ter vindo ao mundo, pisado nesse inferno, apenas para tirar o peso dos ombros desses lobos em pele de cordeiros. Clamam por justiça, mas são os primeiros quando o assunto é tirar até o último suspiro desses pobres que buscam por abrigo.  

 Sim, no final somos todos iguais. No sangue, na pele, na carne. Todos demônios que espreitam os mais fracos, que devoram até o último suspiro de pessoas tão boas que só desejam viver em paz, nada mais.

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